A inteligência artificial trouxe-nos muitas coisas boas, mas também prestou um serviço inestimável à velha impostura humana. Deu aos superficiais um vocabulário, aos medíocres uma velocidade aparente e aos ambiciosos sem substância uma maneira nova de parecerem mais do que são. Nunca foi tão fácil simular inteligência, exibir fluidez, emprenhar pelo ouvido e subir na consideração alheia sem que, por baixo da superfície, exista verdadeiro lastro. A grande utilidade da IA, para certa gente, não está no que permite criar, mas no que permite fingir.
Foi assim que surgiu uma nova casta de impostores bem falantes. São os deslumbrados pelo espírito do silício, os tocados pela graça do jargão técnico, os “experts” que, depois de meia dúzia de palestras, três artigos mal lidos e um seminário pago pela empresa, despertam para a convicção de que são agora sumidades em matéria de inteligência artificial. Até ontem, esta gente mal distinguia um ficheiro CSV de uma torradeira. Hoje, fala de modelos, automação, agentes, ética, escalabilidade, governação e transformação digital com a segurança enfática de quem julga que nomear já é dominar.
Não estudaram a matéria, ficaram-se pela sonoridade. Não a compreendem, decoraram-lhe os tiques. E, como o nosso tempo tem a lamentável complacência de os levar a sério, lá seguem eles, inchados, a debitar banalidades com o ar inspirado de quem acabou de ver o futuro. O problema não está apenas em falarem do que não sabem. Está em que, não sabendo, decidem, orientam, corrigem e impõem-se a quem sabe mais do que eles.
O mais admirável — ou mais repugnante, conforme o estômago de cada um — é que esta eloquência não nasce do saber, mas do efeito acústico da designação do cargo que ostentam. O cargo passou a ser um disfarce sonoro de competência. Vice-President of Practices, Director of Innovation, Transformation Leader e outras peças da mesma feira lexical, em que o inglês, enxertado num português reverente e servil, empresta à banalidade um ar de sofisticação, à vacuidade um adorno de modernidade e à insuficiência uma autoridade que nunca mereceu. Quem desfila estes títulos na lapela entra logo na sala convencido de que pensa melhor do que os outros todos. E, mal preside a uma reunião, julga perceber mais do que quem trabalhou, leu, testou, falhou, afinou e construiu.
É assim que brota o milagre do ignorante investido de autoridade. Não sabe, mas decide. Não percebe, mas orienta. Não domina, mas corrige. E corrige com aquele tom particularmente odioso, condescendente e bem colocado, feito de superficialidade e certezas. A inteligência artificial, que deveria ser uma ferramenta, transforma-se, na boca e nas mãos desta gente, num adereço de estatuto e numa licença para pontificar.
Mas a praga não termina dentro das organizações. Pelo contrário, encontra o seu maior esplendor nos mercadores da inteligência artificial. São consultores, arquitetos, evangelistas, estrategas, especialistas e charlatões do algoritmo, homens e mulheres de sapato caro e apresentação lustrosa, que entram pelas empresas dentro com um “deck” de quarenta slides, meia dúzia de expressões caras e uma grande soberba. Chegam menos para compreender do que para catequizar, menos para ouvir do que para impor, menos para aprender do que para vender uma superioridade que trazem pronta, embalada e faturável.
Chegam, sentam-se, cruzam as pernas, pousam sobre a mesa uma caixa de pastéis de nata e um cacho de bananas, bebem um copo de água e iniciam de imediato a catequese. Falam do potencial cliente como se o conhecessem desde sempre, dos problemas como se lhes pertencesse a autoria e, por isso, a autoridade das soluções. E fazem-no diante de pessoas que ali trabalham há anos, que conhecem a casa, os sistemas, os processos, os entraves, as limitações, os riscos e até as manias dos decisores. Mas nada disso lhes merece relevo. O consultor-arquiteto de IA não vem para ouvir, vem para impor. Não vem para aprender, vem para exibir e vender a sua alegada superioridade.
Há qualquer coisa de profundamente ofensivo neste espetáculo. O homem ou a mulher que dedicou anos à organização, que conhece o terreno, que estudou seriamente, que tem currículo sólido, experiência acumulada, discernimento técnico e memória institucional, vê-se arredado para um canto, enquanto o charlatão, com voz bem colocada e palavras em inglês, é recebido como um emissário do futuro. O mérito interno passa a ser destratado, a competência toma-se por resistência, a prudência por atraso e a experiência por peso morto.
E então dá-se a infâmia do costume. Os mais capazes são passados para trás, os mais preparados são ignorados, os que melhor currículo têm são descartados ou mantidos em silêncio. Muitos desses profissionais, se fossem julgados com um mínimo de seriedade, estariam sem esforço no lugar dos que aparecem de fora a impingir milagres em PowerPoint, montados com a verborreia do ChatGPT, despejada à pressa e engolida sem leitura, sem filtro e sem qualquer sombra de espírito crítico.
Mas a ironia não está apenas no discurso sobre a inteligência artificial. Está no uso que dela fazem. A IA tornou-se, para muitos, uma prótese de inteligência. Serve-lhes para parecerem mais cultos, mais rápidos, mais claros, mais articulados, mais inteligentes. Serve-lhes para escrever para lá do que sabem, resumir o que nunca entenderam, responder com prontidão ao que mal leram e produzir com fluidez aquilo que a sua cabeça jamais conseguiria ordenar.
Não há mal nenhum, entenda-se, em usar inteligência artificial para aprimorar o que já existe. Pelo contrário. Quem já sabe escrever, escreve melhor. Quem já pensa com rigor, refina o pensamento. Quem já distingue o essencial do acessório, usa a ferramenta como extensão do seu discernimento. Quem já sabe resumir, resume com maior celeridade. Quem já domina a linguagem, a estrutura e a ideia, recorre à IA como o bom músico recorre a um instrumento afinado, não para fingir talento, mas para o servir.
A ferramenta, nesse caso, não substitui a pessoa, amplifica-a. Não inventa qualidades, depura-as. Não cria substância do nada, ajuda a lapidar a que já existe. O resultado conserva uma espinha dorsal humana, um timbre, uma coerência, um lastro. Há ali alguém por trás do texto, alguém que sabe o que quer dizer e reconhece o que é excessivo, o que é frouxo, o que é falso, o que está a mais e o que falta. A IA, nas mãos de quem já é, apenas refina.
Mas nas mãos do impostor sucede coisa muito diversa. Aí, a inteligência artificial já não é ferramenta, é travesti. Não aperfeiçoa uma competência, encobre uma nulidade. Não auxilia um pensamento, substitui a sua ausência. Não acelera uma aptidão, mascara uma insuficiência. O indivíduo que não sabe escrever passa a produzir prosa aceitável. O que nunca soube resumir despeja sumários polidos. O que jamais teve clareza exibe uma clareza emprestada. O lento parece célere. O confuso parece objetivo. O banal apresenta-se articulado.
E contudo, por mais vistoso que seja o disfarce, há sempre um ponto em que a costura se nota. Porque a inteligência artificial, quando usada como máscara por quem nada tem por detrás, deixa um rasto subtil de artificialidade. O texto pode sair limpo, mas não respira. A frase pode soar correta, mas não tem nervo. A ideia pode parecer ordenada, mas não tem raiz. Falta-lhe aquela imperfeição viva que pertence aos humanos. Falta-lhe densidade, intenção, lastro. Há qualquer coisa de demasiado liso, demasiado pronto, demasiado simétrico.
O genuíno e o impostor podem, por momentos, produzir coisas parecidas, mas não produzem a mesma coisa. O genuíno usa a IA para elevar o que já possui. O impostor usa-a para se fantasiar daquilo que não é. Um corrige, afina, acelera, depura. O outro oculta, simula, encena, representa. Um mantém o domínio sobre a ferramenta. O outro agarra-se a ela como um incapaz agradecido. Um sabe quando o texto está errado, frouxo ou empolado. O outro toma por inteligência tudo o que a imite bem, porque, não a possuindo, também não tem critério para a distinguir.
É precisamente aí que a fraude se revela. Não necessariamente no primeiro parágrafo, nem no e-mail rápido, nem no relatório que deslumbra. A fraude acaba sempre por se denunciar com o tempo, no confronto, na pergunta que exige mais do que pose, na reunião em que é preciso explicar o que se assinou sem verdadeiramente o pensar, na apresentação em que já nem consegue decifrar o que o próprio diapositivo pretende dizer e, acima de tudo, no momento em que o pensamento deixa de poder ser subcontratado a um modelo. É então que o impostor, embrulhado em inteligência alheia, cai mal se vê forçado a comparecer em nome próprio.
E, ainda assim, muitas organizações rendem-se ao travestido e acolhem com deslumbramento o homem que responde depressa, escreve com brilho emprestado e repete, com fluidez, fórmulas que não concebeu nem entende por inteiro. Premiam o artifício, desde que este lhes surja bem embrulhado e com a compostura certa. O mundo corporativo, devoto da aparência, tem particular estima por estas figuras, porque parecem produtivas, parecem lúcidas, parecem inovadoras, parecem prontas e, num meio onde o parecer há muito tomou o lugar do ser, isso basta.
No fundo, a inteligência artificial veio apenas sofisticar uma velha doença, a tentação de parecer em vez de ser. De um lado, desfilam os Vice-Presidents of Whatever, os Directors of Innovation, os Transformation Leaders que, à falta de substância, se adornam com o “tecnoglês” para simular importância, modernidade e autoridade, falando da IA como se a tivessem inventado. Do outro, surgem os consultores e arquitetos de IA, que a comercializam como quem distribui indulgências tecnológicas. E, no meio, move-se uma legião de nulidades, subitamente penteadas pelo algoritmo, a apresentarem-se como cérebros rápidos e escritores hábeis, quando tudo o que realmente possuem é uma boa ferramenta e uma assinalável falta de vergonha.
O verdadeiro talento não teme a inteligência artificial, porque não depende dela para existir. Usa-a com critério, sem se dissolver nela. A nulidade, pelo contrário, abraça-a com fervor, porque pela primeira vez encontrou uma maneira de parecer aquilo que nunca foi. Mas o verniz, por mais brilhante que seja, continua a ser verniz. E basta um pequeno arranhão para que, sob a superfície lustrosa, reapareça a mediocridade de sempre.
Marco Rosa
Açoriano, livre e por vezes libertário