Sunday, 26 April 2026

Os Charlatões do Algoritmo

A inteligência artificial trouxe-nos muitas coisas boas, mas também prestou um serviço inestimável à velha impostura humana. Deu aos superficiais um vocabulário, aos medíocres uma velocidade aparente e aos ambiciosos sem substância uma maneira nova de parecerem mais do que são. Nunca foi tão fácil simular inteligência, exibir fluidez, emprenhar pelo ouvido e subir na consideração alheia sem que, por baixo da superfície, exista verdadeiro lastro. A grande utilidade da IA, para certa gente, não está no que permite criar, mas no que permite fingir.

Foi assim que surgiu uma nova casta de impostores bem falantes. São os deslumbrados pelo espírito do silício, os tocados pela graça do jargão técnico, os “experts” que, depois de meia dúzia de palestras, três artigos mal lidos e um seminário pago pela empresa, despertam para a convicção de que são agora sumidades em matéria de inteligência artificial. Até ontem, esta gente mal distinguia um ficheiro CSV de uma torradeira. Hoje, fala de modelos, automação, agentes, ética, escalabilidade, governação e transformação digital com a segurança enfática de quem julga que nomear já é dominar.

Não estudaram a matéria, ficaram-se pela sonoridade. Não a compreendem, decoraram-lhe os tiques. E, como o nosso tempo tem a lamentável complacência de os levar a sério, lá seguem eles, inchados, a debitar banalidades com o ar inspirado de quem acabou de ver o futuro. O problema não está apenas em falarem do que não sabem. Está em que, não sabendo, decidem, orientam, corrigem e impõem-se a quem sabe mais do que eles.

O mais admirável — ou mais repugnante, conforme o estômago de cada um — é que esta eloquência não nasce do saber, mas do efeito acústico da designação do cargo que ostentam. O cargo passou a ser um disfarce sonoro de competência. Vice-President of Practices, Director of Innovation, Transformation Leader e outras peças da mesma feira lexical, em que o inglês, enxertado num português reverente e servil, empresta à banalidade um ar de sofisticação, à vacuidade um adorno de modernidade e à insuficiência uma autoridade que nunca mereceu. Quem desfila estes títulos na lapela entra logo na sala convencido de que pensa melhor do que os outros todos. E, mal preside a uma reunião, julga perceber mais do que quem trabalhou, leu, testou, falhou, afinou e construiu.

É assim que brota o milagre do ignorante investido de autoridade. Não sabe, mas decide. Não percebe, mas orienta. Não domina, mas corrige. E corrige com aquele tom particularmente odioso, condescendente e bem colocado, feito de superficialidade e certezas. A inteligência artificial, que deveria ser uma ferramenta, transforma-se, na boca e nas mãos desta gente, num adereço de estatuto e numa licença para pontificar.

Mas a praga não termina dentro das organizações. Pelo contrário, encontra o seu maior esplendor nos mercadores da inteligência artificial. São consultores, arquitetos, evangelistas, estrategas, especialistas e charlatões do algoritmo, homens e mulheres de sapato caro e apresentação lustrosa, que entram pelas empresas dentro com um “deck” de quarenta slides, meia dúzia de expressões caras e uma grande soberba. Chegam menos para compreender do que para catequizar, menos para ouvir do que para impor, menos para aprender do que para vender uma superioridade que trazem pronta, embalada e faturável.

Chegam, sentam-se, cruzam as pernas, pousam sobre a mesa uma caixa de pastéis de nata e um cacho de bananas, bebem um copo de água e iniciam de imediato a catequese. Falam do potencial cliente como se o conhecessem desde sempre, dos problemas como se lhes pertencesse a autoria e, por isso, a autoridade das soluções. E fazem-no diante de pessoas que ali trabalham há anos, que conhecem a casa, os sistemas, os processos, os entraves, as limitações, os riscos e até as manias dos decisores. Mas nada disso lhes merece relevo. O consultor-arquiteto de IA não vem para ouvir, vem para impor. Não vem para aprender, vem para exibir e vender a sua alegada superioridade.

Há qualquer coisa de profundamente ofensivo neste espetáculo. O homem ou a mulher que dedicou anos à organização, que conhece o terreno, que estudou seriamente, que tem currículo sólido, experiência acumulada, discernimento técnico e memória institucional, vê-se arredado para um canto, enquanto o charlatão, com voz bem colocada e palavras em inglês, é recebido como um emissário do futuro. O mérito interno passa a ser destratado, a competência toma-se por resistência, a prudência por atraso e a experiência por peso morto.

E então dá-se a infâmia do costume. Os mais capazes são passados para trás, os mais preparados são ignorados, os que melhor currículo têm são descartados ou mantidos em silêncio. Muitos desses profissionais, se fossem julgados com um mínimo de seriedade, estariam sem esforço no lugar dos que aparecem de fora a impingir milagres em PowerPoint, montados com a verborreia do ChatGPT, despejada à pressa e engolida sem leitura, sem filtro e sem qualquer sombra de espírito crítico.

Mas a ironia não está apenas no discurso sobre a inteligência artificial. Está no uso que dela fazem. A IA tornou-se, para muitos, uma prótese de inteligência. Serve-lhes para parecerem mais cultos, mais rápidos, mais claros, mais articulados, mais inteligentes. Serve-lhes para escrever para lá do que sabem, resumir o que nunca entenderam, responder com prontidão ao que mal leram e produzir com fluidez aquilo que a sua cabeça jamais conseguiria ordenar.

Não há mal nenhum, entenda-se, em usar inteligência artificial para aprimorar o que já existe. Pelo contrário. Quem já sabe escrever, escreve melhor. Quem já pensa com rigor, refina o pensamento. Quem já distingue o essencial do acessório, usa a ferramenta como extensão do seu discernimento. Quem já sabe resumir, resume com maior celeridade. Quem já domina a linguagem, a estrutura e a ideia, recorre à IA como o bom músico recorre a um instrumento afinado, não para fingir talento, mas para o servir.

A ferramenta, nesse caso, não substitui a pessoa, amplifica-a. Não inventa qualidades, depura-as. Não cria substância do nada, ajuda a lapidar a que já existe. O resultado conserva uma espinha dorsal humana, um timbre, uma coerência, um lastro. Há ali alguém por trás do texto, alguém que sabe o que quer dizer e reconhece o que é excessivo, o que é frouxo, o que é falso, o que está a mais e o que falta. A IA, nas mãos de quem já é, apenas refina.

Mas nas mãos do impostor sucede coisa muito diversa. Aí, a inteligência artificial já não é ferramenta, é travesti. Não aperfeiçoa uma competência, encobre uma nulidade. Não auxilia um pensamento, substitui a sua ausência. Não acelera uma aptidão, mascara uma insuficiência. O indivíduo que não sabe escrever passa a produzir prosa aceitável. O que nunca soube resumir despeja sumários polidos. O que jamais teve clareza exibe uma clareza emprestada. O lento parece célere. O confuso parece objetivo. O banal apresenta-se articulado.

E contudo, por mais vistoso que seja o disfarce, há sempre um ponto em que a costura se nota. Porque a inteligência artificial, quando usada como máscara por quem nada tem por detrás, deixa um rasto subtil de artificialidade. O texto pode sair limpo, mas não respira. A frase pode soar correta, mas não tem nervo. A ideia pode parecer ordenada, mas não tem raiz. Falta-lhe aquela imperfeição viva que pertence aos humanos. Falta-lhe densidade, intenção, lastro. Há qualquer coisa de demasiado liso, demasiado pronto, demasiado simétrico.

O genuíno e o impostor podem, por momentos, produzir coisas parecidas, mas não produzem a mesma coisa. O genuíno usa a IA para elevar o que já possui. O impostor usa-a para se fantasiar daquilo que não é. Um corrige, afina, acelera, depura. O outro oculta, simula, encena, representa. Um mantém o domínio sobre a ferramenta. O outro agarra-se a ela como um incapaz agradecido. Um sabe quando o texto está errado, frouxo ou empolado. O outro toma por inteligência tudo o que a imite bem, porque, não a possuindo, também não tem critério para a distinguir.

É precisamente aí que a fraude se revela. Não necessariamente no primeiro parágrafo, nem no e-mail rápido, nem no relatório que deslumbra. A fraude acaba sempre por se denunciar com o tempo, no confronto, na pergunta que exige mais do que pose, na reunião em que é preciso explicar o que se assinou sem verdadeiramente o pensar, na apresentação em que já nem consegue decifrar o que o próprio diapositivo pretende dizer e, acima de tudo, no momento em que o pensamento deixa de poder ser subcontratado a um modelo. É então que o impostor, embrulhado em inteligência alheia, cai mal se vê forçado a comparecer em nome próprio.

E, ainda assim, muitas organizações rendem-se ao travestido e acolhem com deslumbramento o homem que responde depressa, escreve com brilho emprestado e repete, com fluidez, fórmulas que não concebeu nem entende por inteiro. Premiam o artifício, desde que este lhes surja bem embrulhado e com a compostura certa. O mundo corporativo, devoto da aparência, tem particular estima por estas figuras, porque parecem produtivas, parecem lúcidas, parecem inovadoras, parecem prontas e, num meio onde o parecer há muito tomou o lugar do ser, isso basta.

No fundo, a inteligência artificial veio apenas sofisticar uma velha doença, a tentação de parecer em vez de ser. De um lado, desfilam os Vice-Presidents of Whatever, os Directors of Innovation, os Transformation Leaders que, à falta de substância, se adornam com o “tecnoglês” para simular importância, modernidade e autoridade, falando da IA como se a tivessem inventado. Do outro, surgem os consultores e arquitetos de IA, que a comercializam como quem distribui indulgências tecnológicas. E, no meio, move-se uma legião de nulidades, subitamente penteadas pelo algoritmo, a apresentarem-se como cérebros rápidos e escritores hábeis, quando tudo o que realmente possuem é uma boa ferramenta e uma assinalável falta de vergonha.

O verdadeiro talento não teme a inteligência artificial, porque não depende dela para existir. Usa-a com critério, sem se dissolver nela. A nulidade, pelo contrário, abraça-a com fervor, porque pela primeira vez encontrou uma maneira de parecer aquilo que nunca foi. Mas o verniz, por mais brilhante que seja, continua a ser verniz. E basta um pequeno arranhão para que, sob a superfície lustrosa, reapareça a mediocridade de sempre.

Marco Rosa

Açoriano, livre e por vezes libertário

Wednesday, 24 December 2025

Os Medíocres

Há uma classe de criaturas que povoa o nosso Portugal: “Os Medíocres”. Não são heróis nem vilões, para isso, seria necessário um vigor que lhes é desconhecido. Também não são propriamente inofensivos. O seu dano, embora lento e subtil, é por isso mesmo ainda mais insidioso. São, em suma, o torpor humano transformado em sistema, a apatia erigida a estatuto.

Não se pense, porém, que os medíocres agem por pura preguiça. Há, na sua mediocridade, método e astúcia. Sabem que a mediocridade é confortável, que não ofende nem inspira. O medíocre nunca é ameaçado porque nunca se destaca em demasia. Vive na penumbra da respeitabilidade destemperada, onde as ideias nunca são demasiado novas e os costumes demasiado velhos.

O medíocre destaca-se pelo talento da prodigiosa capacidade de fazer pouco, mas aparentar que fez o suficiente para merecer uma ovação. É o burocrata que, diante de uma pilha de e-mails e documentos — digitais ou empoeirados —, suspira com o dramatismo de quem carrega nos ombros o fado de Portugal. A dedicação que aparenta não passa de uma encenação, projetando aos olhos de quem observa a falsa ilusão da devoção que não tem. Na prática, as suas manhãs são consagradas à tarefa minuciosa de fingir limpar o teclado, enquanto aparenta teclar freneticamente algo de grande relevância. E as tardes, por sua vez, consagram-se à verificação cuidadosa de que esta ilusão permanece intacta. Entre um "like" lançado na madrugada e uma verificação vespertina dos comentários nas redes sociais, o tempo desvanece-se sem pressa e sem propósito.

Eles estão presentes em vários campos da nossa vida, onde a mediocridade encontra formas diversas de se manifestar. Do mundo empresarial às esferas do poder, das aldeias às cidades, do ofício das palavras ao palco da política, eles proliferam.

No mundo empresarial, o medíocre “manager” ou administrador, de gravata impecavelmente ajustada, com decisões em barda por tomar e, com uma dissimulação cuidadosamente coreografada, eleva a delegação ao estatuto de sacerdócio. Das suas mãos não brota obra alguma, apenas o subtil deslizar de responsabilidades, conduzidas com a solenidade de quem manuseia um relicário sagrado. Os subordinados, fervorosos devotos da liturgia da inércia, replicam o gesto, passando as tarefas e as decisões de mão em mão numa procissão diligente, que só encontra o seu fim quando um acólito menos reverente à santa mediocridade, com algum zelo, decide finalmente concluí-las.

Faz pouco, decide ainda menos, mas procrastina com mestria, sustentando, com o ar solene de quem exala responsabilidade e competência, a glorificação magistral da sua própria mediocridade. E fá-lo com tal imponência que, num golpe de ironia, converte o que deveria passar despercebido num triunfo aparente, mascarado de virtude, como se a sua única conquista fosse, afinal, a glorificação da falha cuidadosamente disfarçada.

Na política, o medíocre, armado de palavras repletas de promessas, exalta o progresso com a mesma veemência com que se empenha em travá-lo. O fervor do seu discurso é feito dos votos de louvor e pesar que apregoa. Sabe bem que a ovação está sempre garantida, não pelo mérito da sua palavra, mas pela glória fugaz dos que no seu discurso nomeia e astutamente engrandece, para colher em seu nome os ecos do aplauso alheio. E assim, oculta-se, na espessa névoa do poucochinho, onde transforma a mediocridade em virtude e a insignificância em triunfo. A sua acção é inversamente proporcional à eficácia do que proclama, mas jamais concretiza. Enquanto proclama o progresso, prepara os entraves a qualquer mudança. Proclama grandes reformas enquanto perpetua os velhos vícios do sistema, mantendo intactas as amarras que jurou quebrar.

No fundo, é um mestre na arte de parecer avançar enquanto recua, travando com destreza tudo aquilo que aparenta defender. É a perfeita caricatura de si mesmo — imóvel e exagerado —, como um desenho sarcástico que eterniza os seus traços, risíveis, mas cuidadosamente mascarados, garantindo que a mediocridade que o acompanha nunca seja exposta. É, em suma, aquele que transforma o imobilismo numa arte refinada e eleva a estéril inoperância do seu quotidiano à dissimulada dignidade de uma filosofia que abraça como estilo de vida, repetindo-a com teimosia, como se o tempo jamais pudesse exauri-lo ou a realidade despertá-lo.

No campo da mediocridade jornalística, temos o “jornaleiro”, que é, sem dúvida, o mais hábil de todos, um verdadeiro artífice do nada, capaz de revestir o frívolo com a aparência de profundidade e de transformar o insignificante numa manchete de destaque. É o colunista que preenche colunas com diligência mecânica, tratando banalidades com pompa e circunstância. É o escritor de editoriais que enreda o leitor num labirinto de palavras ornamentadas, confundindo prolixidade com erudição, enquanto mascara a ausência de ideias sob camadas de frases sinuosas, onde o sentido, inevitavelmente, se perde. Mas é o crítico quem se destaca nesta trupe “jornaleira”, elevando-se não pelo seu próprio brilho, mas pelo prazer de desmontar o labor alheio, erguendo a sua vanglória sobre os escombros daquilo que destrói. Estes, ao contrário dos outros, não temem o novo, desde que o novo seja suficientemente velho para parecer familiar.

Mas, a mediocridade também se manifesta, com particular fulgor, nas tertúlias que decorrem no café da aldeia. Ali, os medíocres exibem as suas opiniões como os pescadores que descrevem, com entusiasmo, o tamanho descomunal do peixe que nunca apanharam. Falam com grande autoridade sobre temas que não dominam e discutem a economia como quem ajusta o orçamento da mercearia. Aplaudem o passado, porque o passado já não os incomoda, e desconfiam do futuro porque este é incerto.

Nas cidades, apresentam-se bem trajados, circulam por escritórios climatizados e dominam com mestria a arte de parecerem atarefados. Transportam o “laptop” e dedicam-se a responder a e-mails e a participar em conversas irrelevantes nas redes sociais, com uma diligência que faria corar de vergonha o mais meticuloso dos monges copistas. Já em casa, à mesa de jantar, não perdem a oportunidade de se gabar do seu “árduo” dia de trabalho, enquanto, num tom lamuriante, se queixam do trânsito, do governo e do preço dos tomates que, ironicamente, parecem faltar-lhes, como se tudo isso conspirasse contra a sua suposta grandeza.

Independentemente da profissão, credo ou estatuto social, os medíocres partilham entre si uma aliança silenciosa, um pacto que garante a sua sobrevivência. Protegem-se uns aos outros com devoção, porque sabem que a exposição de um ameaça todos. Este é o seu seguro de vida, a barreira que os resguarda do escrutínio e mantém intacta a ilusão de mérito. Na hierarquia invisível da mediocridade, impera o princípio de que a crítica é perigosa, não porque revele falhas, mas porque pode abrir brechas no muro de complacência que os mantém a salvo. Assim, louvam-se mutuamente em público, ignoram os erros uns dos outros e sustentam, com lealdade, o equilíbrio precário que lhes permite prosperar na penumbra. Afinal, para o medíocre, o verdadeiro perigo não é a sua falta de mérito, mas a possibilidade de que alguém ouse apontá-la.

No entanto, o medíocre fascina, é um sobrevivente, uma criatura adaptada à mediocridade do nosso mundo. Nunca se lança ao abismo, mas também nunca escorrega na borda. Vive uma vida mediana, morre de uma morte mediana e deixa um legado mediano. Talvez, no fundo, os medíocres sejam os verdadeiros génios do nosso tempo, porque perceberam que o esforço é uma invenção perigosa e o brilho, uma condenação anunciada.

Friday, 20 June 2025

O Caciquismo Empresarial

 

Não ergue castelos, mas constrói “hubs”. Não comanda exércitos, mas manipula “recursos humanos” como quem dispõe da criadagem obediente de séculos passados. Tal como os antigos senhores feudais, reina, não por direito divino, mas por sucessão de favores, alianças informais e jantares estratégicos, onde a sobremesa é sempre uma promessa e o café na copa um pacto tácito. Falo-vos do novo cacique empresarial.

Este cacique dos tempos modernos não brada ordens. Sussurra influências. É virtuoso no compadrio e mestre na arte do organigrama parasitário, onde os cargos se distribuem como brasões hereditários. As promoções não brotam do mérito ou da ousadia, mas de um enigmático “networking” que, na prática, se traduz em saber quem bajular, quando sorrir e onde calar.

Quando declara procurar alguém que “encaixe na cultura da empresa”, entoa apenas a ladainha, ocultando sempre com mestria o critério tácito de que só entra quem fala, se curva e sorri como ele. A tão celebrada “cultura da empresa” é, na verdade, uma estratégia de reprodução de classe, onde os afilhados se reconhecem pelo timbre da voz, pelo colarinho impecável e pela reverência calculada.

Este potentado moderno, de camisas de marca e léxico empolado recheado de “sinergias”, “insights” e “alinhamentos estratégicos”, rodeia-se de uma corte de bajuladores. Cada qual na sua cadeira giratória, fingindo produtividade enquanto orbita em torno do ego central. É um sistema heliocêntrico de vaidades. No centro, o cacique. Na periferia, subdirectores, chefes de equipa e consultores, todos a girar com pose de importância, mas sem gravidade própria.

O talento autêntico, quando ousa florescer fora desse esquema, é rapidamente extirpado. Nada ameaça mais o caciquismo do que um espírito livre com ideias próprias. O pensamento crítico é tratado como heresia. A inovação, como insolência. O mérito, como um cavalo de Troia a ser domesticado antes que contagie.

Nesta monarquia empresarial celebra-se uma liturgia feita de “calls”, “corporate talks” e “follow-ups”, onde o conteúdo é secundário e o essencial é manter a aparência de ação. O cacique aprecia ver a sua gente ocupada, ainda que seja a trocar e-mails cerimoniais numa dança vazia e sem propósito.

A gestão ocorre por “chat” às seis da tarde, para demonstrar empenho, e por reuniões às nove da manhã ou na hora de almoço, para testar a servidão. A eficácia perde-se nos documentos partilhados e não lidos e nos “dashboards” gerados por modelos de inteligência artificial que exibem gráficos coloridos e conclusões dúbias.

E quando, por sorte ou desgraça, uma crise abala a estrutura — seja um escândalo, um contrato falhado ou um protesto — o cacique desaparece, deixando o séquito a arder no incêndio que ele próprio ateou. Ressurgirá depois com nova gravata e título repaginado, noutro principado empresarial, onde será saudado como salvador graças às cartas de recomendação trocadas entre pares que se protegem como membros de uma confraria mafiosa.

Em Portugal, esse jardim à beira-mar plantado, as empresas são geridas como mercearias de bairro. Todos devem, mas o merceeiro continua a vender fiado, agarrado à ilusão de que algum dinheiro novo garantirá mais um dia de sobrevivência numa falência há muito anunciada.

O caciquismo empresarial não é exceção. É a regra. E se algum ingénuo ousar denunciá-lo, será desacreditado, silenciado ou, pior, absorvido por uma equipa onde a sua denúncia será convertida em “proposta de melhoria” e enterrada sob atas e verniz institucional. A mordaça, já então oficializada, disfarçar-se-á de boa gestão.

Assim se perpetuam a corte, a farsa e o feudo. Entre o Excel e a Excelência, entre a bajulação e a burocracia, entre o café na copa e o caos institucional, reinam os caciques. Senhores de tudo e responsáveis por nada, numa Lisboa que, cada vez mais, exala o odor de capital disfarçada de cidade de província.

E os pobres vassalos sacrificam a dignidade, sonhando que a sua obediência canina e zelo submisso lhes rendam a pequena lotaria do sistema. O sorriso do padrinho. O cargo de assessor do líder das “práticas”. A esmola dourada da influência. Renunciam ao carácter, nutrindo a esperança de serem recompensados com um pouco mais de coisa alguma.

Tuesday, 31 December 2024

A Hipocrisia do Passado e a Miséria do Presente

Porque aqui habitam portugueses — essa prole de gerações sucessivas, safra da mediocridade resignada, uma pequenez de alma tão meticulosa quanto impenetrável. É um povo que acolhe apenas até ao limite em que o cálculo do interesse o permite. A hospitalidade é uma máscara, e a inveja, uma natureza tão enraizada que, na avareza, se contenta em possuir pouco, desde que o outro possua menos ainda. Renuncia-se ao que se poderia ganhar não por desapego, mas apenas pela mesquinha volúpia de assegurar que nenhum dos que o rodeiam ousará ter algo mais.

Evocam-se tempos idos, como quem lança uma vã e inútil cruzada para polir a putrefacta mediocridade que há muito nos define e corrói. Clama-se pelos descobrimentos e pelos heróis que, enfrentando mares e tempestades, ousaram cruzar o desconhecido — movidos mais pela ânsia de pilhar do que pelo desígnio de colonizar. Há quem, com eloquência trabalhada e hábil manobra de retórica, procure pintar o contrário, mas eu insisto: não partiram por bravura, mas pela ânsia de escapar à miséria, à resignação e ao torpor de quem não soube transformar o infortúnio em oportunidade.

Chamam-lhe feitos grandiosos, moldados aos valores de um tempo já há muito enterrado na poeira dos séculos. E, contudo, esses feitos são hoje celebrados com pompa e acompanhados pela dissimulada hipocrisia de quem se pretende legítimo herdeiro de um legado que nunca foi seu e que, na verdade, não passa de uma impostura. Toda a existência se moldou na mentira: partiram, não por grandeza ou glória, mas pela urgente necessidade de fugir à miséria de uma vida breve e opaca — e, se a fortuna assim o permitisse, para nunca mais regressar.

É um estigma que, na azáfama dos nossos dias, carregamos como um lastro e odiamos como uma sina. Alguns, por infortúnio da inteligência, reconhecem-no e tentam dele escapar e, tal como os de tempos idos, fogem em debandada, levando consigo a amarga certeza de que as oportunidades, aqui, jamais os alcançarão. Os inteligentes, evadem-se sem desculpas ou artifícios: sabem, com a lúcida clareza que a inteligência lhes concede, que não há fuga possível ao círculo vicioso que, há séculos, nos enreda. Um ciclo que, implacável, prossegue sem descanso, indiferente ao cansaço do tempo ou ao desgaste dos séculos.

Estes, porém, serão bem-sucedidos. Adotarão outras nacionalidades, orgulhar-se-ão dos países que os acolheram, igualaram e celebraram. Carregarão, no entanto, uma vergonha velada da portugalidade, que a sua inteligência jamais lhes permitirá declarar abertamente. Dir-se-ão eternamente portugueses, mas, nas entrelinhas das suas palavras, louvarão as terras alheias que lhes ofereceram um lugar ao sol. E, com subtileza, manterão uma ténue alusão à sua origem, suficiente apenas para escapar ao escárnio das raízes que deixaram para trás.

Quanto aos comuns, de inteligência mediana — essa peculiar categoria que, em Portugal, é menos rara do que a dos verdadeiramente inteligentes e, ainda assim, marcada pela escassez — não são inteiramente estúpidos, mas estão igualmente distantes de qualquer brilho notável. Formam, pois, uma parcela ainda mais insignificante da nossa paisagem intelectual, que alguns, com uma insistência risível, teimam em designar como “a média”.

Partem, imitando, por força de uma cópia mal feita das ações dos inteligentes, ainda que estas não lhes sejam aplicáveis. Com a sua capacidade mediana, tornam-se lá, mais do que cá, os capachos de povos que os recebem com uma candura estudada e uma benevolência calculada, típica de quem trata como igual aquilo que, de facto, sabem ser diferente. Serão os servos cuja força de trabalho fará brilhar outras terras, com um esforço árduo que, embora mais bem pago do que aqui, se presta lá sem a lamúria que por cá causaria um pranto incessante. Lá, aceitam de bom grado a pataca e meia, que quem paga sabe ser escassa, mas que, sustentada pelos valores limitados e a interiorizada aceitação do “poucochinho”, os fará exibir um orgulho desajustado — um orgulho que não deveriam ter e do qual, de facto, nada há a celebrar.

Por fim, deparamo-nos com os Lerdos e os Tolos, essa dupla que, em igual número, parece equilibrar-se numa ironia tão triste quanto mordaz. Os primeiros, os Lerdos, são raros os que, movidos por ímpeto, ousam aventurar-se além-fronteiras. Mas, cedo desiludidos, regressam. Aqueles que, pela falta de meios ou de sorte, não conseguem voltar, permanecem lá como escravos, o que pouco altera a sua condição, pois aqui também o seriam — não pela dureza das circunstâncias que os condenaram lá, mas pelo desprezo que a sua breve audácia inspira nos que por cá ficaram. Na melhor das hipóteses, ascendem à indigência, título que lhes confere alguma singularidade social, embora igualmente irrelevante.

E sejamos sinceros, sem adornos nem evasivas. Por mais discursos que se teçam ou proclamações que se ergam, ninguém em plena consciência se preocupa realmente com o destino que lhes cabe. São peças descartáveis num jogo maior cuja engrenagem pouco ou nada sofre com a ausência ou o fracasso.

Os restantes, a par com os Tolos, permanecem por cá. Estes, no entanto, têm reservado para si um papel relevante: tornam-se os nossos regentes intelectuais, os jornalistas que o povo, com complacência acrítica, transformou em “influencers”. São as elites que atravessam todos os espectros ideológicos, da esquerda à direita, dos liberais aos conservadores. E assim se perpetua, com devoção, a herança de séculos de uma “raça” de incompetentes, corruptos e coletivistas que alimentam a inveja e que, de forma perversa, se afirmam virtuosos.

E desenganem-se os que se indignam ao ler o que escrevo, seja por familiaridade, por boa vontade, ou por um lampejo de virtude que os leve a pensar que me excluo deste pântano ou que, se nele me incluo, me arrogo ao título dos “inteligentes”. Não, não, meus senhores e minhas senhoras, não alimento tal ilusão. Sei bem que pertenço aos “Tolos” — e carrego a triste consciência de o saber.

Wednesday, 25 December 2024

Um Teatro de Decência Encenada

Na Rua do Benformoso, sob um céu riscado de azul como que pintado de propósito para a ocasião, os primeiros foguetes rasgam o ar, anunciando o início do cortejo. O estampido ecoa nas pedras gastas da calçada, como se acordasse os transeuntes e afugentasse para as sombras os habituais proxenetas, traficantes e outras personagens da boémia suburbana. Um murmúrio percorre a multidão reunida nas margens do percurso, uma mescla de reverência e curiosidade que denuncia a atração irresistível pelo sagrado — ou, pelo menos, pelo espetáculo.

Os acólitos, vestidos de azul e armados com bastões que mais evocam um tribunal itinerante do que uma procissão religiosa, avançam com precisão militar pelos flancos do cortejo. Com uma cordialidade ensaiada, pedem aos presentes que se encostem às paredes, enquanto o Magistrado-Mor, figura solene de porte imaculado, observa e supervisiona cada movimento. É ele quem garante a integridade do ritual, zelando para que nem um murmúrio fora de tom perturbe o protocolo. Encostados às paredes, com as mãos pousadas sobre as fachadas degradadas ou sobre dizeres indecorosos, os fiéis aguardam com expectativa e uma pitada de temor, como réus diante do veredicto divino.

No cortejo desfilam pessoas de todos os credos e religiões, de todas as cores e estaturas, compondo um mosaico humano onde se misturam tons e texturas. As cores, por vezes encardidas pela sujidade, pelos excessos das substâncias proibidas ou pela inevitável marca do ADN, permanecem alheias a julgamentos. Firmes e convictas, permanecem indiferentes ao olhar crítico ou à misericórdia ocasional que a ocasião possa inspirar.

No descompasso da procissão seguem os Pachecos, ostentando o velho testamento laranja como um emblema de outrora, embora as suas páginas contradigam o novo — que, sendo também velho, já não evoca a memória romântica de tempos idos. Não é nos textos que reside o saudosismo, mas antes na velhice carregada de cicatrizes de guerras, onde nunca se distinguiu como herói. É essa nostalgia, misturada com o peso de desilusões mal digeridas, que lhe confere o ímpeto de repetir, com uma serenidade quase imprópria, a vergonha que sente.

Falta-lhe, no entanto, aquela estrutura invisível que sustenta os homens de carácter: a coluna vertebral, moral e metafórica, que lhe permitiria caminhar pela procissão com a dignidade dos que sabem ser julgados, mas não condenados. No seu caso, é o desconforto que lhe confere uma força provisória, uma espécie de vigor artificial, tão efémero quanto as poses que ensaia, servindo apenas para encobrir a falta de um verdadeiro sentido de vergonha — essa virtude rara que só os espíritos bem estruturados podem ostentar sem esforço.

Na vanguarda do cortejo, os sacerdotes, ladeados pelos seus acólitos, avançam aspergindo os pecados da multidão com gestos amplos e solenes. O suor da comoção escorre pelas faces e mãos dos penitentes, enquanto a proclamação retumba no ar: "Estais limpos!". E assim, os pecadores de menor monta são libertados para prosseguir no cortejo, com os fardos espirituais aliviados por uma graça que, ainda que efémera, lhes parece suficiente.

Mas nem todos escapam à solenidade do ritual. Os mais pesados de pecados, aqueles cuja alma parece atulhada de faltas, são retirados do caminho e escoltados, entre murmúrios e olhares curiosos, até aos calabouços da sacristia. Alguns, dizem, serão submetidos a uma expurgação mais intensa, um ajuste de contas espiritual que promete libertá-los dos seus fardos.

Ao fundo, porém, os ateus mantêm-se entrincheirados, um enclave de desdém que nada os abala. Filmam com telemóveis, tiram fotografias com um prazer que parece quase pueril e, entre risos abafados, deixam escapar blasfémias tão ensaiadas quanto o cortejo que criticam. "Onde estão os pecadores?", perguntam, com sorrisos tortos, enquanto descrevem em altos brados aquilo que esperavam ver e não viram. O seu coro desafinado, contudo, pouco perturba o ritmo da procissão, que avança indiferente, resguardada sob o escudo da fé — ou seria da lei? — ou talvez apenas pela teimosa persistência do hábito.

Na esteira da procissão, são os entrincheirados, aqueles mesmos que antes observavam com desdém, que agora lideram a rusga. Irrompem pela rua com a determinação implacável de quem se autoproclamou guardião da justiça e do bem. Avançam resolutos, uma assembleia que, embora diversa em género, se revela marcadamente homogénea no privilégio — caucasianos, abastados, donos de um conforto que lhes confere a audácia de se apresentarem como senhores da moral. Empunham armas de "espinhos" e pétalas vermelhas, num misto de real e metafórico, e, com uma crueldade metódica, submetem os recém-absolvidos a uma revista implacável das suas almas, despojando-os de qualquer pureza que ainda pudesse ter sobrevivido ao caos.

Cerceados à força, sem consentimento e desprovidos da mínima cordialidade, os pecadores, agora vítimas, são confrontados com símbolos que não compreendem, ritos que não partilham e uma cultura que jamais tiveram a oportunidade de absorver ou incorporar. Na sua cruzada, os "soldados" brandem a hipocrisia como virtude e a astúcia como método, mascarando sob o véu de uma pretensa superioridade moral os mesmos métodos de opressão que marcaram as rusgas mais sombrias da história — ecos distantes, mas inegáveis, de Holodomor, Stalin e Hitler.

A rua, que fora há instantes cenário de ordem e penitência, converte-se agora num palco de imposições e fanatismo, onde a pureza é extirpada sem delicadeza, e a força bruta da moral sobrepõe-se à solenidade que marcara a procissão anterior. Tudo em nome de um poder efémero e de um protagonismo desprovido de substância, tão oco quanto a glória que se esforçam por usurpar.

E nesta procissão que é rusga, e na rusga que é procissão, todos se despiram da decência que nunca verdadeiramente possuíram. De decentes a indecentes se fizeram num piscar de olhos. O único triunfo foi o da hipocrisia, agora entronizada como soberana incontestável deste curioso teatro social. Reina agora altiva e sem resistência.

Aqui imerge o requinte desta tragicomédia — ou antes, desta farsa de pretensões e contradições. Os seus atores, tão empenhados na pompa do espetáculo, parecem ignorar que o público mais atento — se porventura o há — desvia o olhar do enredo e se detém, antes, no grotesco reflexo que este projeta. Eis, pois, a mais saborosa das ironias: nesta correria desenfreada por virtudes proclamadas e purezas encenadas, ninguém parece dar pela lama que arrasta consigo, uma lama espessa que não apenas suja, mas revela, sem piedade, a verdadeira natureza de quem nela se movimenta.

Saturday, 9 November 2024

O Grande Erro: Julgar Sem Conhecer

Seria Odair Moniz condenado à pena capital por fugir da polícia?

Não, decididamente não. Mas o ponto central, está longe de ser aquilo que vemos à superfície. O verdadeiro problema reside em algo muito mais profundo e grave, que é não fazermos a mais pequena ideia do que se passou e, contudo, avançamos todos como se estivéssemos diante de uma verdade inabalável. Aí está o grande mal da nossa sociedade, de elevar suposições ao estatuto de factos, de moldar o palpite numa sólida e inquestionável certeza.

Ainda mais curioso, e talvez inquietante, é ver figuras “respeitáveis”, como o líder parlamentar do Bloco de Esquerda, a alardear conclusões que, na sua essência, são construções de areia. Lançam-se num labor diligente e minucioso, como se fossem investigadores, erguendo opiniões ao nível de verdades incontestáveis. E o que fazemos nós, os prudentes, os que deveríamos esperar, pacientes, por algo mais concreto, algo mais próximo da realidade? Falamos e alimentamos o falatório. E calamos, permanecendo em silêncio perante tão vil hipocrisia, tornando-nos cúmplices, enquanto a multidão, ignorante, mas fervorosa, já condena e sentencia, como num julgamento de feira.

Dentro deste espetáculo, não faltam os que se proclamam ardentes defensores do Estado e das suas instituições, sempre prontos a erguer a bandeira da ordem e da confiança nos seus guardiães. Mas são agora esses mesmos que, sem hesitar, afastam qualquer dúvida e apressam-se a exaltar a atuação das Forças de Segurança. Aqueles que antes louvavam o rigor, agora julgam com descuido e com a mesma severidade impiedosa, ignorando a necessidade de apurar o contexto completo e de verificar se os procedimentos ditados pela situação foram efetivamente seguidos. Olham apenas para a condição de quem, por infortúnio, vive no Bairro e exaltam, com as mesmas premissas de omissão da verdade, aquilo que condenam nos outros. Esta é a peça final de uma tragédia moral, como se de uma condenação e de uma glorificação irrefutáveis se tratasse.

Sim, o desfecho é trágico, inegavelmente. Mas como podemos julgar, desconhecendo? Como podemos, sem se apurar em pleno os factos, falar em legitimidade ou culpa? Falamos, e voltamos a falar do que não sabemos, e talvez aí resida o maior dos nossos erros.

Ética, Responsabilidade e Prudência: Uma Análise da Intervenção de Bernardo Blanco e o Caso Tiago Mayan

A análise do comentário do deputado e vice-presidente da Iniciativa Liberal Bernardo Blanco na rede “X”, requer uma reflexão.

Considerações prévias:

  1. Baseado nos factos divulgados pelos meios de comunicação social até à data presente. Todas as informações aqui apresentadas resultam da interpretação das informações divulgadas, assumindo-se, que essas fontes são fiáveis e as informações nelas contidas verdadeiras. No entanto, mantendo sempre, alguma prudência e reserva.

  2. Nas notícias dos órgãos de comunicação social, não há uma referência explícita a que as ações de Tiago Mayan, nomeadamente a falsificação de assinaturas e elaboração de um documento falso,  constituam formalmente um crime. Contudo, o ato de falsificar assinaturas e criar um documento com informações falsas pode ser considerado como um comportamento irregular ou potencialmente ilícito, dependendo do enquadramento jurídico aplicável e da conclusão da investigação judicial.

    Na ausência de uma declaração jurídica ou acusação formal, qualquer interpretação sobre a ilegalidade das ações de Mayan permanece no domínio da suspeita e da avaliação ética, sem uma acusação explícita de crime.

 Factos :

  1. Falsificação: Tiago Mayan, presidente da União de Freguesias (UF) de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, admitiu ter elaborado e falsificado assinaturas numa ata do júri do Fundo de Apoio ao Associativismo Portuense, datada de 16 de setembro, assumindo plena responsabilidade e isentando o executivo e colaboradores.

  2. Fundos e Procedimentos: O Fundo de Apoio ao Associativismo Portuense, com um montante global de 875 mil euros, é administrado pelas juntas de freguesia. Cada freguesia tem um máximo de 120 mil euros atribuídos e deve apresentar o relatório final até 30 de junho, prazo que a UF liderada por Mayan não cumpriu. O município, em setembro, pediu o envio da documentação até ao dia 20 de setembro.

  3. Consequências do Incumprimento: A celebração do contrato interadministrativo com o município foi retirada da reunião executiva de 30 de setembro após uma associação ter impugnado o procedimento. A impugnação indicava uma violação da lei, alegando falta de audiência prévia dos interessados.

  4. Demissão de Cargo: A 8 de novembro, Mayan anunciou a sua demissão, alegando razões pessoais e reiterando que a responsabilidade dos atos lhe pertence exclusivamente, sem interferência dos restantes membros.

  5. Contexto Político: Tiago Mayan foi eleito em 2021 pelo movimento “Rui Moreira: Aqui Há Porto”, com apoio da Iniciativa Liberal, CDS, Nós Cidadãos e MAIS, e em julho de 2024 formalizou a sua candidatura à liderança da Iniciativa Liberal por discordar do rumo atual do partido.

Considerações Ética:

  1. Quebra de Confiança: Tiago Mayan, como representante público, violou a confiança da comunidade ao falsificar assinaturas e elaborar um documento com informações inexatas, minando a integridade do processo de apoio ao associativismo.

  2. Compromisso com a Transparência: A falsificação e atribuição indevida de responsabilidades denotam uma falha no dever de transparência que se espera de figuras públicas, enfraquecendo a confiança das pessoas nas instituições.

  3. Princípios Éticos Violados: A conduta de Mayan transgride princípios de honestidade, responsabilidade e prestação de contas, valores fundamentais para qualquer servidor público.

  4. Reconhecimento de Culpa: Embora Mayan tenha assumido a responsabilidade total pelo ato, isentando os colegas, este reconhecimento apenas mitiga parcialmente a situação e não anula o impacto negativo para a credibilidade da sua liderança.

A minha conclusão considerando o comentário de Bernardo Blanco

  1. Presunção de Inocência e Definição de Crime: Diz-nos a Constituição da República Portuguesa, no seu Artigo 32.º, que o princípio da presunção de inocência é uma pedra angular do nosso sistema legal. Embora o próprio Tiago Mayan tenha alegadamente admitido a falsificação de assinaturas, e eu até concedo que o tenha feito, embora me abstenha de julgar, nunca é demais relembrar que a definição de "crime" e a imputação de culpa pertencem aos tribunais e não aos “pregadores”, por mais altivos que estes se sintam no seu “opinanço”. Qualquer figura pública, especialmente quando investida da responsabilidade de deputado, deve evitar o uso desmedido e precipitado de expressões condenatórias que criam alarido e que não têm suporte legal. Etiquetar como “crime” sem a chancela de uma sentença judicial é um exercício, no mínimo, imprudente e, no máximo, potencialmente difamatório, principalmente para um político, que tem responsabilidades acrescidas.

  2. Respeito pelos Procedimentos Internos da Decisão do Partido: A Lei dos Partidos Políticos confere autonomia às formações partidárias para definirem as suas regras e procedimentos, e no caso do Iniciativa Liberal, ditam os estatutos e as boas práticas, qualquer decisão de expulsão deve resultar de um processo imparcial que está devidamente regulamentado, não de um julgamento sumário na praça pública “virtual”. Que o vice-presidente manifeste a sua opinião pessoal sobre uma eventual expulsão é legítimo, embora arriscado, sobretudo se não ressalvar que se trata apenas de uma posição individual, evitando a confusão que a sua posição de relevo no IL pode causar, levando a interpretações erróneas de que expressa uma posição oficial do partido. Ao emitir a sua opinião com ares de autoridade, como quem julga e sentencia, parece mais uma tentativa de influenciar o parecer dos órgãos competentes. As decisões disciplinares pertencem aos órgãos competentes, que, conforme ditam as regras democráticas do IL, devem ser conduzidas num processo transparente, sem serem contaminadas por opiniões pessoais no púlpito da rede “X”.

  3. Ética e Transparência na Comunicação: É claro e basilar que figuras públicas, em especial um vice-presidente partidário, que têm um fardo de responsabilidade adicional quando se dirigem ao público. Não é um bom augúrio para um partido de pessoas livres e liberais a prática da autoproclamação de idoneidade num momento de crise, é como vender confiança por palavras onde ela deve ser visível aos olhos de todos sem necessidade de alarde. A idoneidade, por definição, é algo que se sente, não se proclama, e o discurso de “seriedade” e “integridade” autoproclamada arrisca-se a soar a um pedido de validação, ou pior, a uma tentativa de distrair os militantes de algumas fragilidades internas do IL.

  4. Liberdade de Expressão: A liberdade de expressão é um valor precioso da nossa Constituição (Artigo 37.º), mas essa liberdade exige o dever de comedimento no uso das palavras. Associar o comportamento de Tiago Mayan a um “ato criminoso” antes de qualquer decisão judicial é um exercício de liberdade que, paradoxalmente, ameaça a própria liberdade do visado. Figuras públicas, especialmente aquelas com relevância política como Bernardo Blanco, têm a responsabilidade de evitar juízos sumários que possam, perante o público, dar a impressão de querer influenciar processos judiciais. Não se pode, em suma, aventurar-se no terreno escorregadio do julgamento popular, terreno onde o próprio já criticou adversários políticos de se perderem.

  5. Tentativa de Misturar o Debate Interno com Este Caso: Por fim, tenho de assinalar que o comentário do deputado sugere uma inusitada e, quiçá, inconveniente tentativa de colar este caso de Tiago Mayan à sua liderança da oposição interna. Que há uma vontade de desacreditar a oposição interna parece bem evidente, por parte de Bernardo Blanco. Num partido que é plural e democrático, o confronto de ideias é um tónico revigorante e uma garantia de vitalidade. Fazer com que este episódio de Mayan seja usado como munição contra o debate interno não só é um disparate, mas um desrespeito pela própria liberdade que o IL tanto valoriza. A diversidade de opiniões é de enaltecer num partido político e deve ser acolhida como tal, e não amordaçada ou misturada com a situação atual. Mais parece que o zeloso vice-presidente quis aqui jogar a cartada de desviar o foco e subjugar as vozes de divergência com um laivo de ironia.

A prudência deveria orientar aqueles que se arrogam guardiões da ética e do rigor, confiando nos trâmites legais e internos e permitindo que a justiça siga o seu curso sem pressões nem prosápias desmedidas. Já se falaram e escreveram palavras em excesso, quando a sensatez nos sugere esperar antes de nos lançarmos ao tribunal da praça pública, e, se ainda assim decidirmos pronunciar-nos, que o façamos com a cautela e a discrição de quem reconhece não estar na posse de todas as peças deste episódio, por mais evidentes que as respostas nos possam parecer à primeira vista.

Permitam-me ainda acrescentar que, na minha opinião – uma convicção pessoal, não isenta de falhas –, Tiago Mayan deveria, até mesmo para preservar o partido que ajudou a fundar, considerar voluntariamente suspender a sua militância até que tudo se apure. Contudo, se algo ficou inequivocamente claro neste caso, é a manifesta incompetência no exercício das funções que desempenhava, evidenciada pelo simples facto de não ter cumprido o seu dever na gestão do processo dos fundos, como lhe competia.

Os Charlatões do Algoritmo

A inteligência artificial trouxe-nos muitas coisas boas, mas também prestou um serviço inestimável à velha impostura humana. Deu aos superfi...